2 de fevereiro, 2018 | Autor(a): Lucas Rocha

Vitrine musical

Foto: Pedro Vilela / Agencia i7

Quando se fala de Carnaval em Salvador é instantânea a associação com os nomes de Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Chiclete com Banana e outros vários ícones da axé music. Quando o destino muda para o Rio de Janeiro ou São Paulo, os grandiosos desfiles das escolas de samba logo tomam nosso imaginário. Mas e quando falamos de BH? Qual a identidade do nosso Carnaval? De cara pensamos nos blocos de rua que vêm arrastando multidões, e, que agora se preparam para dar à folia mineira uma identidade musical que pode levar seus nomes para o cenário nacional e alavancar o status da festa momesca em Belo Horizonte.
Um dos nomes mais conhecidos e bem-sucedidos nessa trajetória é o de Geo Cardoso. Baiano de nascença e belo-horizontino por criação, ele é fundador do Baianas Ozadas, bloco de rua que, no último ano, deu origem a uma banda que investe em apresentações por toda Minas Gerais, inclusive outros estados como São Paulo e Rio de Janeiro. “Sempre trabalhei com artistas, seja em assessoria de imprensa, produção cultural etc, mas o bloco foi meu primeiro trabalho cantando mesmo. O Baianas passou um processo de amadurecimento muito rápido nesses últimos anos e se tornou um bloco de BH. Quando percebemos isso, víamos que o público também procurava estar em um bloco com qualidade vocal, ritmista, mais bem produzido”, conta.
O bloco, que já recebe patrocínio privado para dar conta dos altos custos da super infraestrutura que leva para a avenida Afonso Pena na segunda-feira de Carnaval, neste ano, além de trazer o repertório famoso com clássicos da axé music e a homenagem a Carlinhos Brown, apresentará músicas autorais que já estão caindo nas graças do público. “Ainda não lançamos oficialmente, mas já estamos apresentando a música Sou baianas que fala muito sobre a gente e o nosso Carnaval que é muito familiar. A recepção do público nos ensaios tem sido muito calorosa”, afirma.
Quem também acredita no fortalecimento das bandas de Carnaval como uma forma de consolidar a folia na capital como uma tradição por várias gerações é Matheus Brant, fundador do bloco e banda Me beija que eu sou pagodeiro, que desfila no dia 4, às 9h. “O surgimento do bloco e banda aconteceu simultaneamente. Este ano será a primeira vez que vamos sair com um trio elétrico, vocais e instrumentos. Isso dos blocos lançarem bandas próprias já é uma tendência, uma vez que é mais que necessário manter e elevar a qualidade do Carnaval. Isso sem falar na possibilidade de conquistar relevância artística e lucros”, explica Matheus ao acrescentar que neste ano a banda lança um novo EP com três músicas autorais e uma releitura.
Inclusive, dinheiro é uma questão delicada para os organizadores. Com o crescimento da festa, colocar o bloco na rua literalmente exige bastante dinheiro, assim como investir em gravações de músicas autorais em estúdio, divulgação etc. André Álvares, mestre de bateria, percussionista e fundador do Quando come se lambuza, achou um meio termo para investir sem precisar colocar dinheiro do próprio bolso, mas os lucros parecem longe de existir. “Arrecadamos com venda de bebida durante os ensaios, produtos, além do próprio cachê da banda. É algo que fazemos por paixão, mas é claro que queremos nos sustentar e ter lucro, mas ainda não é uma realidade”, diz.
Com um DVD novo gravado recentemente e clipe novo no Youtube da música de trabalho, Te encontrar, o Quando come se lambuza, assim como a maioria dos blocos, conta com a divulgação do público que se apaixona pelas músicas de forma espontânea. “É um público muito fiel, a gente brinca que eles são nossos ‘evangelizadores’ que levam a música para os outros conhecerem e muitos fazem parte da nossa bateria no cortejo durante o Carnaval”, revela André adiantando que nesse ano eles desfilam no sábado, dia 10, com 200 componentes na bateria e um trio ainda maior.

Foto: Dilson Ferreira / QU4RTO STUDIO

Mas nem todas as bandas surgiram com o Carnaval, algumas tiveram início antes e depois fundaram o bloco. É o caso da Juventude Bronzeada, criada por Thales Silva com outros dois amigos na mesma época em que tinham outra banda, A fase rosa. “Esse universo do axé mais ligado à MPB sempre nos conquistou muito, e aí veio a ideia de criar um power trio para poder tocar essas músicas. Os amigos gostaram muito e começaram ‘pilhar’ a gente para criar o bloco”, relembra.
A banda, que hoje se mantém de forma independente ao bloco, criou uma estratégia que consiga sustentar a organização para o cortejo no Carnaval e ter algum lucro, mas ainda conta com muita disposição e trabalho voluntário. “É um braço independente, então a gente segue tocando bastante, porque é muito importante financeiramente para os músicos. Mas também fazemos apresentações direcionadas exclusivamente para ter a renda revertida para o bloco, a exemplo da Sonoriza em parceria com outros blocos para ajudar no aluguel do carro de som. Mas considerando a quantidade de trabalho dos envolvidos, acaba tendo dinheiro tirado do próprio bolso de certa forma se olharmos as horas de trabalho, as apresentações, as regências e os próprios ensaios”, analisa.

Crescimento sem limites
Considerado um dos seis principais destinos durante o Carnaval, a folia em Belo Horizonte não para de crescer. O Bloco de Belô é um bom exemplo disso. Enquanto em 2017 o cortejo reuniu 40 mil pessoas, a expectativa para 2018 é de receber 60 mil. O bloco originalmente dos comunicadores tem o comando do jornalista Robhson Abreu e o cantor baiano Alex Rodrigues e faz o seu cortejo no sábado de Carnaval, a partir das 14h, na avenida Álvares Cabral, com direito a abadá assinado pelo estilista Victor Dzenk.

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