1 de junho, 2017 | Autor(a): Pedro Leone

Um novo normal

A divulgação das gravações de Aécio e Temer reforçam que a velha política precisa acabar

A forma escandalosa com que a política nacional vem sendo tocada não foi inventada por Lula. Muito menos por Temer, ou ainda por Fernando Henrique, sequer Collor. Como disse o personagem icônico de Tropa de Elite, “o sistema é foda”. Ele se perpetua há décadas e usa de figuras que aceitam suas regras, como todos os presidentes desde a ditadura militar, para manter a engrenagem funcionando. É isso que o espinhoso trabalho da Polícia Federal e Ministério Público tem provado nos últimos anos. Estabeleceu-se, como normal na política a compra de parlamentares, seja com cargos, investimentos ou, diretamente, propina. Definiu-se que grandes empresas são peças-chave na máquina e que delas e por elas sairia e passaria todo o dinheiro necessário para fazer o esquema funcionar. Percebeu-se que unidos são mais fortes, e mesmo diante de provas incontestáveis, acusados e aliados negarão tudo, sempre.

Lula fez isso, ao fazer a maior vista grossa da história durante o mensalão, dizendo que tal esquema não existia no seu governo. Mesmo com José Dirceu preso, mantinha o discurso de negação e apoio.

Aécio mostra agora usar exatamente da mesma tática. Inventa uma realidade paralela, pouco crível, para justificar seus atos, e como mostra recentes gravações que vieram a público, cobra apoio de aliados mesmo quando não há o que se apoiar. Com Beto Richa, governador do Paraná, ameaça expulsar do partido um secretário que declarou que cobraria a saída de Aécio do PSDB caso fosse comprovado que tomou ações criminosas. Com o Senador Zezé Perrella afirmou que “sua campanha foi financiada da mesma forma que todas as outras, que é correta”.

O atual establishment brasileiro vê como normal o superfaturamento de contratos privados para financiamento de campanhas políticas e compra de apoio parlamentar. É assim que o jogo é jogado, e é assim que ele é ganho. Pois o que o momento pede é a construção de um novo normal. O fim da democracia de coalizão só será completo quando um novo pacto for formado, no qual a transparência é conceito chave. Sai na frente o grupo que perceber isso e abandonar as velhas práticas.

Não é o que Temer está fazendo. Não é o que Aécio está fazendo. Muito menos Lula. Enraizados na velha política, ao serem expostos e confrontados com a nova necessidade, só reforçam ações que repetem o modus operandi de sempre. Ligam para seus lobbystas, acionam seus aliados e trocam cargos por influência. Diante do fim iminente de seu governo, Michel Temer trocou o Ministro da Justiça, colocando na mira o comando da Polícia Federal. Ameaçou uma chuva de processos contra sua quase certa cassação e conta com seus amigos no judiciário para barrar o processo. Ao ser questionado, nega, compulsivamente.

São os últimos suspiros do velho. Precisamos do novo normal.

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