19 de outubro, 2017 | Autor(a): Pedro Leone

Quem manda

A classe política há muito deixou de se importar com o povo, e briga para saber quem tem o poder

Nossos políticos continuam brigando para ver quem é que manda no Brasil. O Congresso acha que manda, pois tem o poder de mudar, aprovar ou barrar leis e projetos de governo. Em recente votação da denúncia de formação de quadrilha pelo presidente da República, a Comissão de Constituição e Justiça da Casa se disse contra a denúncia e a favor de Michel Temer. Mas a votação tem seu preço, e o recado foi claro: o presidente precisa se esforçar mais para garantir vitória quando a votação for aberta a todos os parlamentares. Só que Michel também acha que manda, com dinheiro. Como fez da última vez em que sofreu denúncia, abriu os cofres que dizem estar tão vazios, e liberou algumas dezenas de milhões de reais em emendas parlamentares. Com os bolsos cheios, os deputados votam a favor do seu patrocinador.

Em outra esfera, o Supremo Tribunal Federal vem tentando se impor, como quando ordenou o afastamento do Senador Aécio Neves. Só que o Senado acha que manda mais, e derrubou, em votação, a decisão da Justiça.

Enquanto os três poderes discutem a relação, o último integrante dessa história permanece passivo. Tentando gritar mais alto nas redes sociais, coordenados pelos mesmos políticos que se esforçam arduamente pra desviar o debate, a população ainda tenta descobrir qual ponto de vista está mais certo. Não percebe que não importa, pois enquanto mergulhamos nessa discussão, a DR na alta cúpula define nosso futuro sem consultar nossa opinião.

Acontece que esse quarto elemento, o tal do povo, tem poder. Seguindo no ritmo em que estamos, em algum momento vamos precisar perceber isso. E se não for no voto, ou na participação ativa no debate, será na ameaça. Como aconteceu recentemente no Egito, ou tem começado a acontecer na Espanha, há um limite da racionalidade em que a população percebe que o inimigo está no poder, e lembra que pode tirá-lo de la, mesmo que na base da força.

Um momento delicado e importante, em que a própria classe política precisa perceber que tem dois caminhos. Um é tentar mudar radicalmente a agenda para ouvir e atender as demandas da população, revertendo a inacreditável rejeição do governo, que é aprovado por apenas 3% dos brasileiros. Acalma os ânimos e ganha credencial para se colocar como o “quem manda”, com respaldo. Esse caminho, como está mais claro, o governo não está disposto a seguir. Defendendo a tese de que o poder do povo é ilusão, usa da vantagem hierárquica para se segurar.

O outro caminho é se segurar enquanto pode. Torcendo para que a balança do poder não vire antes das eleições, apostando que a legitimidade do voto traga estabilidade. Caminho arriscado, que pode inclusive incitar mais a revolta, antecipando ações irracionais. Se continuarem nesse rumo, antes de virarmos qualquer Venezuela, podemos ser a próxima Síria.

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