23 de março, 2017 | Autor(a): Pedro Leone

O mal não está na carne

Desesperado para se preservar, o governo continua a fazer questão de não olhar para o problema

Há quem diga que foi um golpe da PF para desestabilizar o governo Temer. Ou quem pense que foi uma ação calculada para derrubar a concorrência das nacionais no mercado estrangeiro de exportação de carne. Tem quem jure que é tudo mentira e circo para tirar a atenção das votações da reforma da previdência ou da terceirização.

A crise da carne, estabelecida por mais uma operação da Polícia Federal, dessa vez investigando fraude na fiscalização de carnes no Brasil, pode ser uma série de coisas, menos uma surpresa. Ou não deveria ter sido.

Claro que falar agora é fácil, mas quando foi a primeira vez que você ouviu a história do peso adulteirado da carne no supermercado? Ou do hambúrguer de minhoca? Do frango transgênico?

A carne brasileira ainda é uma das melhores do mundo. Não significa que ela esteja imune ao jeitinho brasileiro. O que a PF vem fazendo, com louvor, é mostrando que mesmo (ou principalmente) nas nossas mais sólidas forças, vive o nosso maior defeito: a corrupção. Temer, ao dizer que está tudo bem, esconde isso. Não está tudo bem. Há tempos não se está tudo bem por aqui. Não é cortando a aposentadoria ou barateando a mão de obra que vamos sanear o país, mas sim encerrando as relações corruptas entre governo e setor privado. Transparência. Sustentabilidade. Termos que circulam por aí há décadas, mas para quem está no topo parece ser apenas slogan. Enquanto não mudarmos a mentalidade dos negócios entre estado e empresariado, teremos sempre algum setor no holofote.

Se não é empreiteira, será frigorífico. Ou bancos, ou agências de publicidade ou empresa pública ou rede de postos, supermercados, o que seja. O mal não está instituição, mas na forma com que praticamente todas são geridas. E o governo teima em fazer não ver, ou pior, desviar a atenção para o outro lado.

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