27 de outubro, 2017 | Autor(a): Redação TUDO BH

O impulso do vinil

Discos, quase desaparecidos no final dos anos 1990, seduzem consumidores, se firmam com os aficionados, atiçam o mercado

Mais de 40 mil discos de vinil arrumados nas repartições. Velhos e novos long plays (LPs) separados por estilo e ordem. Numa pequena sala ao lado a vitrola não para, com seus estalinhos. Parece uma loja do passado, dos anos 1970, 80, 90 e ela é dessa época, permanece, resiste, toca outras faixas da história da música. O técnico Túlio Pereira está lá, sempre vai, percorre o espaço, olha as capas, confere as novidades, conversa sobre a qualidade do som. “Meu sonho é ir ao Japão comprar vinil.” Ao país das raridades dos discos, que se refazem no mundo a cada ano, voltam a atiçar o mercado com sua crescente invasão das faixas de sucesso neste século digital. Chegaram à marca de 6 mil cópias vendidas em 1 semana do The Endless River, o último álbum no formato bolachão do Pink Floyd, o mais bem-sucedido lançamento desde 1997.

Jogam o preço para o alto, seduzem com suas ranhuras em forma espiralada ouvintes do passado que se debandaram para outras mídias, lançam suas faixas analógicas aos nascidos na era digital, firmam-se com os que nunca os abandonaram. Voltam a ocupar espaço, a casa do chargista Maurício Ricardo, em Uberlândia. São cerca de 2 mil discos no armário desse colecionador, que começou na adolescência, migrou para os portáteis CDs na década de 1990, voltou a eles há cerca de 10 anos. “O CD não tem a sensação de pertencimento como o vinil. Ele remete a coisas antigas, ao aspecto afetivo, à música de qualidade superior”, diz.

Reserva tempo para limpar os discos, procurar as melhores agulhas ouvi-los sem pressa. “Tenho todas essas frescuras porque é uma experiência sensorial, quente, mais viva”, confessa o chargista. Acha que os vinis antigos são melhores, têm profundidade nos sulcos. “Mas agora está chique ter vinil e para o colecionador é ruim.” Os preços sobem, encarecem as vitrolas, as agulhas. Lembra que o Tim Maia Racional, volume 2, vale mais de 1.500 reais. Permanece, esmiúça sites, procura som de qualidade, ouve MP3 na hora corrida do trabalho, reserva tempo para o vinil bem cuidado, guardado, escolhido. “O som tem uma superioridade gigante.”

Foto: Fred Magno / Agencia i7

Escuta no vinil nuances o que não consegue perceber no CD, tão compacto, na música baixada na internet. “O barato do disco é o encarte, com as letras das músicas”, diz o servidor público Helbert Luiz Borba de Oliveira. Ele, que ouvia vinil na adolescência, perdeu a coleção por falta de espaço, empréstimos não devolvidos, retornou do zero há mais 5 anos depois de ter herdado da sogra a vitrola. “Imagino que hoje tenho mais 350 discos, além de fitas cassetes.” Gosta de ir a sebos, à Galeria do Rock, em São Paulo, a lojas fora do país. Aumentar a coleção de vinil, no caminho contrário das previsões de que o streaming de música na internet seria o futuro da indústria fonográfica.

A loja do centro, a dos 40 mil nas prateleiras, vende mais discos há 6 anos. “Antes eram 20% de vinis e 80% de CDs”, informa Samuel Estevam de Souza, proprietário da Música Rara. Vê a fama dos discos, que chegaram até a serem doados, vendidos a preços módicos, se estender, cooptar a indústria, cantores, bandas estrangeiras e brasileiras. Há discos de cantores como Pitty, Jorge Ben Jor, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Fernanda Takai, Naldo, O Rappa, Los Hermanos, Nação Zumbi… Agitar o mercado, onde ele nunca deixou de vender discos, tinha clientes jovens, que agora vão com os filhos.

“Ele ficou de standy by, nunca foi embora. É como Deus, dizem que vai voltar, mas e le está sempre aí”, diz o publicitário Everton Moscardini Naves. Desfez-se da sua coleção. Vendeu 2 mil vinis em 1998, conservou uns poucos. “Eles ocupavam muito espaço na casa e você sabe mulher não gosta disso.” Sentiu-se livre, com a separação em 2006, para voltar às compras. “Mas não é com a mesma fúria de antes.” Restringe aos que interessa, não deixa se seduzir pelos caros. Lembra do LP Paêbirú, de Zé Ramalho e Lula Cortês, que estava pronto para ir às lojas quando uma enchente levou parte dos exemplares. “Sobraram alguns, que devem custar 2 mil reais. Há pessoas que compram só para falar que possuem. Há os que ficam lacrados porque  têm medo de abrir. Viraram objeto de ostentação.”

Foto: Pedro Vilela / Agencia i7

Diz que não paga mais de 60 reais pelo vinil, está com quase 200, espera chegar aos 300, 400 no máximo. “Eu gosto de ouvir os estalinhos. Vinil é charmoso”, conta Everton Moscardini Naves. Vai no embalo do disco, que deveria ter sido suplantado pelo CD. “Ele substituiu foi as fitas cassetes. O disco nunca nos deixou.” Continua, conquista os que nasceram no final dos tempos analógicos. “É um som mais encorpado. Expande a música, o CD compacta”, diz Leandro Maestri, que virou DJ. Mescla vinil e MP3, teve 3 mil discos, vendeu 2.400.

Começou a colecionar quando estava com 10 anos, pouco antes de o vinil escassear por aqui e nunca parou. “Importava, buscava em São Paulo. Gosto do vinil e ainda tem a capa para ser manuseada.” Acredita que os discos voltaram às paradas de sucesso com a novela Boogie Oogie, de 2015 da Rede Globo. “Os jovens gostam de coisas diferentes”, acrescenta. Registra o aumento de mais de 50% nas vendas de aparelhos de toca-discos na Som Alternativo. Há espaço para crescer mais, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, na Inglaterra. Há os que sempre permaneceram, segurando a sobrevida dos bolachões.

Foto: Fred Magno / Agencia i7

“Tenho toque com o vinil”, diz Pedro Paulo Cava, diretor de teatro. Quando vai ouvir, passa água gelada com detergente para tirar a poeira, fica atento às agulhas, cuida do acervo de 800 discos. “Cheguei a ter 8 mil.” Vinha desde a adolescência porque o pai gostava de música. “Ganhei radiola.” Depois comprou, recebeu vinis de presente e não havia mais espaço para tantos exemplares. Não quis se desfazer deles. Resolveu dar para os filhos dos amigos. “O som do vinil tem uma pureza. Acho bárbaro o chiado. Não compro mais porque não há sentido.” Tem tudo, os discos distribuídos na estante, feita só para eles, o estoque de agulhas, o aparelho de mais de 30 anos. O som com estalinhos vai continuar…

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