5 de outubro, 2017 | Autor(a): Pedro Leone

O exercício da liberdade

Entender que o debate requer ouvir o outro e considerar que você pode não estar certo não é fácil

Existe excesso de liberdade? A resposta rápida é de que sim, pelo limite da Lei. Mas quem define esse limite, em tese, é a sociedade, que firma nas leis um pacto do que pode e o que não pode. Ao que tudo indica, o pacto atual está com prazo de validade vencido.

A nudez, por exemplo, que era algo um tanto comum em sociedades ancestrais, por muito tempo foi um tabu, até que nas últimas décadas vem sendo colocada como algo mais natural. Praias de nudismo, cenas de nudez em filmes e tvs, o famoso topless. Mas de repente, as redes sociais se inflamam por uma exposição em que um corpo nu é mostrado como arte. Fugindo do debate se é um trabalho de qualidade, ou mesmo sobre bom gosto ou mal gosto, mas a tentativa de se criminalizar o ato, proibindo exibições como essa, é mais um sinal da onda conservadora em que estamos entrando. E o pacto social que temos não comporta esse conservadorismo.

É que esse tipo de pensamento é cíclico. Momentos na história de grande ruptura são precedidos e sucedidos por retrações conservadoras. Foi assim no surgimento de movimentos como o nazismo e o fascismo, foi assim quando levantes militares criaram diversas ditaduras em todo o mundo, incluindo no Brasil, e vem se repetindo agora, com uma onda conservadora que não é restrita ao chiqueiro eleitoral brasileiro. Uma onda conservadora baseada no medo, construida geralmente quando algo na sua zona de conforto está sendo ameaçado.

Entender que superar momentos como esse requer um exercício difícil de liberdade, não é simples. O conservadorismo, como a história já mostrou, leva em seu extremo a um atraso tremendo na sociedade, quando o medo nos leva a abrir mão de conquistas e avanços importantes para não nos sentirmos inseguros. Como vão tirar minhas armas, com pessoas tão perigosas lá fora? Como que essa pessoa tem a coragem de deixar uma criança próxima a um homem nu, com um mundo tão cheio de pedófilos?

A resposta não é preto no branco, não é matemático. É preciso ampliar o debate e separar o perigo real, do medo construído. Entender que é importante ser livre e deixar o outro também ser, sem comprometer o pacto. A cada proibição arbitrária, a cada silêncio conquistado no grito, perdemos a chance de mais um debate e de firmar um novo pacto. Andamos no escuro rumo a um muro de intolerância.

Da próxima vez que um homem nu surgir na sua timeline, não aponte o dedo e o acuse do primeiro absurdo que vier à cabeça. Discuta, debata, coloque seu ponto de vista e leia outros. E depois, siga em frente. Não vá na direção oposta, nos jogando décadas de avanço pra trás.

 

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