16 de outubro, 2017 | Autor(a): Pedro Leone

Faça​ ​você​ ​mesmo​ ​sua​ ​opinião

As manifestações moralistas contra exposições de arte trazem mais público para as próprias
obras

“Eu sou aquilo que tu vês”. Assim escreve Pedro Moraleida, artista belo horizontino cujo trabalho está exposto
atualmente no Palácio das Artes. Com pinturas quase sempre se referindo a sexo, genitálias e um tom puxado ao
profano, o trabalho provocou uma série de manifestações raivosas quanto à sua abertura ao público. Fato curioso é
que o trabalho de Moraleida data de mais de 20 anos, e só agora ganha, fora do metiê artístico, repercussão. Fato
que se não estivéssemos no calor de um movimento moralista, conservador e retrógrado, impulsionado por
movimentos políticos precisando de atenção rápida e barata, a exposição provavelmente passaria despercebida.
É que o trabalho não se destaca pela qualidade técnica, pela beleza dos quadros ou pelo bom gosto, ou falta dele. A
arte de Pedro é aquela dos perturbados, dos loucos, que se expressam nas obras para colocar pra fora o que não
cabe em pensamento. Tanto não cabe, que em 1999, ainda aos 22 anos, se matou, erguendo, em carta, o dedo do
meio aos hipócritas.

E talvez seja essa atitude, de revolta, que mesmo 20 anos depois jogou um trabalho com foco quase pessoal, a um
patamar de verdade inconveniente. O mundo apodrecido, sexualizado, de aparência tosca, está aí, na frente dos
olhos de quem quiser vê. O trabalho que corajosamente levaram à Grande Galeria do Palácio das Artes não faz
nada além de escancarar esse lado nas telas.

Incomodados aqueles que não admitem a própria dificuldade de encarar essa verdade, que preferem esconder os
nossos defeitos debaixo do tapete. Herança, mais uma vez, de décadas de um país que vivia de aparências, de
obras grandiosas para gringo ver, enquanto dentro de casa a repressão rolava solta.

Bom ver que, apesar do último grito dos conservadores indignados, o progresso caminha a seu próprio passo.
Graças aos atos contrários à exposição, o evento que esperava poucos e bons visitantes, agora tem filas. São
aqueles que optaram por olhar para os quadros, ver a verdade pelos olhos de Moraleida e formar a própria opinião.
Todos livres para gostar, concordar, repudiar ou questionar, mas com a certeza de que o lado do artista foi ouvido,
mesmo 20 anos depois.

Como bem coloca o título de uma das obras expostas, a barbárie também tem poesia.

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