30 de março, 2017 | Autor(a): Pedro Leone

Boas notícias?

O governo tenta mostrar reação frente à crise econômica. Mas tropeça na própria credibilidade

O Banco Central divulgou nesta semana as previsões mais otimistas para a economia brasileira em muito tempo. Eles apostam que chegamos ao final do ano com a taxa de juros em 9% (hoje está em mais de 12) e a inflação em menos de 4% (chegou a ultrapassar 10% no ano passado). Em meio a um dos momentos mais delicados do governo Temer, com as delações premiadas envolvendo políticos de todo grupo ideológico na Operação Lava-Jato, e a opinião pública cada vez mais incomodada com medidas polêmicas como a lei da terceirização e a reforma da previdência, as notícias parecem vir em um timing inacreditavelmente certeiro.

Boas notícias. A economia começa a mostrar solidez novamente, ao menos aos olhos dos empresários e investidores. Mas dois pontos são importantes de se observar. Primeiro, os juros não caíram, e nem a inflação, de forma vigorosa. O BC divulgou uma previsão. Na verdade, nunca antes havia feito previsões tão a longo prazo. Quase uma futurologia. Então mesmo que tudo pareça bem, as previsões precisam se concretizar, e o governo precisa trabalhar para garantir que as condições favoráveis aconteçam de fato. O segundo ponto é: a que custo? Indicadores econômicos são exatamente isso: indicadores. Mas reduzir números, podem e possivelmente irão trazer benefícios a longo prazo, mas há que se pensar o tipo de sacrifício que optamos por fazer. As reformas propostas, nas leis trabalhistas e da aposentadoria, são necessárias, por se tratarem de mecanismos antigos no Brasil e precisam ser constantemente modernizados e adaptados às novas realidades. Mas o que o governo parece fazer não é reformar, mas arrancar forçadamente despesas do orçamento, de forma pouco criteriosa.

Uma das primeiras medidas anunciadas pelo governo foi o corte de diversos cargos comissionados, mas que foram rapidamente repostos em seguida. O salário superinflado da classe política é tema sagrado e intocável. A devolução aos cofres públicos de milhões desviados, que agora vem sendo comprovados, não parece ser prioridade. Mas cortar gastos em benefícios sociais são facilmente aprovados no congresso.

O problema, como já havia colocado por aqui, é mesmo a falta de credibilidade do governo. No atual contexto, fica difícil engolir que as notícias do BC sob o mando de Temer não sejam mera propaganda para inglês ver e para o brasileiro acreditar.

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